
São Paulo – O motorista, ajudante e amigo pessoal de Pablo Neruda declarou que o poeta chileno foi morto pelo regime de Augusto Pinochet, instalado a partir de um golpe de Estado dias antes, em setembro de 1973. A duas emissoras locais de rádio, Cooperativa e Bío Bío de Chile, Manuel Araya disse que Neruda foi envenenado com uma injeção fatal na Clínica Santa María, onde estava internado.
A morte de Neruda é historicamente atribuída a um câncer de próstata contra o qual o poeta lutava. Em junho deste ano, a Justiça chilena aceitou o pedido de investigação do episódio, a partir de suspeitas do Partido Comunista do país. Na ocasião, a Fundação Pablo Neruda, que administra as casas e o acervo convertidos em museus do poeta no Chile, negou a versão.
Araya é a principal testemunha do caso e sustenta que a internação na clínica foi uma tentativa de protegê-lo, e não por estar em más condições de saúde. "Ele estava doente de câncer, mas resistia muito bem. Ele não estava mal, não tinha por que ter morrido."
"Pensávamos que na clínica estaria mais seguro. Nunca pensamos que lhe iam dar uma injeção e ele ia morrer", disse o ajudante e amigo. Uma vez internado é que ele piorou. Araya contou ter recebido um telefonema de Neruda dizendo que se sentia fraco e com febre, suspeitando ter recebido algum tipo de injeção no estômago.
Ao chegar, o médico teria pedido que o próprio motorista comprasse o medicamento indicado para o tratamento. Embora tenha estranhado o pedido, por estar em uma clínica que poderia fornecer o remédio, ele acabou concordando em ir até uma farmácia. Ao deixar o local, porém, foi detido por carabineros a serviço da ditadura chilena. Horas depois, o prêmio Nobel de literatura de 1971 morreu.
À época da morte, Neruda preparava-se para deixar o Chile rumo ao México, exilado. A viagem era indesejável à ditadura, segundo Manuel Araya. Militante comunista e referência para a esquerda de toda a América Latina, Neruda teve papel político destacado no governo de Salvador Allende, iniciado em 1970.
No dia 11 de setembro de 1973, o governo de Allende foi deposto em um golpe de Estado. Neruda morreu no dia 23 daquele mês. A revelação de uma versão diferente sobre a morte do poeta acontece sete meses depois de o corpo do líder político ter sido exumado. Os exames confirmaram que Allende se suicidou.
Segundo o Sul21, o presidente do Partido Comunista chileno, Guillermo Teillier, disse que é "um dever moral" exigir investigação sobre o assunto.
O ex-embaixador do México no Chile Gonzalo Martinez é apontado como outra testemunha-chave para a versão de Araya, já que o diplomata esteve com Neruda dias antes da morte do poeta. O encontro foi dedicado a acertar detalhes sobre a concessão de asilo político na capital mexicana. Martinez relata ter encontrado Neruda doente, mas distante do estado catatônico que a equipe médica da clínica lhe atribuiu em documentos oficiais.
Neruda foi assassinado, reitera ex-ajudante do poeta
"Pablo Neruda foi assassinado. Não estava para morrer, estava com boa saúde", reiterou, em Santiago do Chile, Manuel Araya, motorista, ajudante e amigo pessoal do poeta chileno.
Em declarações à Rádio Cooperativa do Chile, Araya disse que, depois do golpe de Estado de 11 de setembro de 1973, a família e os amigos do Prêmio Nobel de Literatura (1971) decidiram levá-lo do seu lar até a Clínica Santa María de Santiago por segurança.
"Pensávamos que na clínica estaria mais seguro. Nunca pensamos que lhe iam dar uma injeção e ele ia morrer", relatou.
Araya informou que explicou tudo em detalhe às autoridades judiciais que pesquisam a morte do poeta e, em particular, ao ministro do caso, Mario Carroza: "Ficou muito contente com o que lhe contei; contei-lhe todo o que eu sabia".
Citado também por Rádio Bío Bío de Chile, Araya disse que, estando Neruda nessa clínica, lhe chamou por telefone para lhe dizer que tinham dado a ele uma injeção no estômago e que estava com muita febre.
Araya foi então à instituição médica e lá um doutor pediu-lhe que saísse para comprar um medicamento, informou em seu depoimento.
"Eu retiro uma toalha para molhar (a Neruda) e lhe baixar a febre, entro no banheiro para lavar meu rosto e molhar a toalha, entra um doutor e me manda comprar um medicamento, mas eu lhe digo que nós estamos pagando e o medicamento deve ser fornecido por eles".
"Tive que ir a uma farmácia de bairro e saí para comprar o medicamento, mas nunca imaginei que me seguiam automóveis e, na rua Vivaceta com Balmaceda, fui detido a muito poucas horas da morte de Neruda. Tinham tudo programado", sustenta.
"Esse maldito assasino matou-o. Ele estava doente de câncer, mas resistia muito bem. Nesse dia, ele estava pendente de sua viagem ao México que ocorreria dois dias depois. Ele não estava mau e não tinha por que ter morrido. O governo militar não queria que saísse do país e por isso o fez", enfatizou.
De acordo com a informação propalada pelo regime militar de Augusto Pinochet (1973-1990), Neruda faleceu em 23 de setembro de 1973 na Clínica Santa María devido a um câncer de próstata.
Dado o antagonismo das versões em torno da morte da ilustre figura das letras latino-americanas, o Partido Comunista do Chile apresentou em maio passado um pedido para esclarecer a causa e as circunstâncias da morte.
O presidente desse partido, Guillermo Teillier, considerou um dever moral da sigla exigir a verdade sobre o falecimiento de quem foi também militante comunista e destacado representante político do Governo da Unidade Popular de Salvador Allende (1970-1973).
Teillier ponderou também a pertinência desta querela em um contexto no que se investigam outros casos emblemáticos da história do Chile, como o de Allende e o de seu ministro de Defesa, José Tohá, e nos que surgiram dados contraditórios que põem em contradição a tese do suicídio que o regime militar divulgou sobre ambos.